“É como se o mundo me incomodasse no sentido mais profundo”
José Saramago

O comunicado da Academia Sueca divulgado em 8 de outubro de 1998 mencionava José Saramago como o galardoado com o Prêmio Nobel de Literatura e destacava como motivo da escolha um escritor “que, com parábolas portadoras de imaginação, compaixão e ironia torna constantemente compreensível uma realidade fugidia”. Passam-se, agora, vinte anos do dia glorioso e principal, quando o neto de camponeses do interior profundo de Portugal alcançou um feito que o inscreve, independente do que se cumpra depois na história do galardão, como o primeiro nome da literatura de língua portuguesa a receber tal honraria. E seus leitores, um extenso grupo de várias línguas, reúnem-se em ocasiões como estas para marcar o inestimável valor de sua obra para a comunidade humana.

Há pelo menos dois princípios fundamentais que justificam tais ocasiões: a genialidade de uma obra que se assume em diversas formas, e a intensa atividade militante assumida por José Saramago desde sempre, isto é, anterior mesmo à sua condição de escritor. Essas feições condizem com um perfil singular entre aqueles cuja contribuição para a sociedade se apresenta noutras dimensões igualmente fundamentais para o seu funcionamento: as de questionar sua direção, rediscutir caminhos, problematizar decisões e rumos que, sobretudo no atual limite a que chegamos, parecem angariar forma à mercê de um complexo conjunto de decisões na maior parte das vezes impensado ou encoberto pela superfície embaciada da ideologia.

Quer dizer, a obra e o pensamento de José Saramago cada vez ganham melhor posição – sobretudo se considerarmos o âmbito de transformações que se mostram em várias frentes e que claramente apontam para uma encruzilhada difícil e perigosa nos rumos de uma civilização que começa a deixar mais a pele de um tempo para investir-se de novas possibilidades. Isso porque toda a atividade discursiva do escritor português mostra-se contributo para uma desagregação dos arranjos até então estabelecidos enquanto verdades indubitáveis e nos cobra alternativas melhor alinhadas com aquilo que nos coloca em relação com a ordem das coisas – alternativas realmente humanas, despidas dos limites impostos pelas dicotomias e pela santificação de determinados modelos e status quo em parte forjados pelo poder dominante. Uma literatura que possibilita, a um só tempo, provocações sobre seu contexto e o seu próprio lugar de criação, sem que se perca do valor fundamental para sua existência entre as mais importantes para o curso das formas artísticas moldadas pela escrita, parece ser uma alternativa para o tempo dos impasses, ou como conceitua Milan Kundera em A arte do romance, o tempo dos paradoxos terminais.

O 1º Colóquio de Estudos Saramaguianos visa o debate em torno da obra e do pensamento de José Saramago nos vinte anos da atribuição do Prêmio Nobel ao escritor. Trata-se de um evento proposto num território bastante fértil ao estudo da literatura saramaguiana: os atuais contextos que atravessamos respondem em parte por isso. Outra parte se abre para a constatação de que o Brasil, dos vários lugares no mundo, tem se revelado um dos principais países interessado no estudo da obra do escritor; constatação que se justifica pela diversidade de estudos acadêmicos constituídos antes mesmo do prêmio que o sagrou universalmente. Tal protagonismo alimenta a tarefa nossa em corroborar com o que já consideramos, no âmbito dos estudos literários e nas relações assumidas por tais estudos com outras frentes diversas dos saberes, como estudos saramaguianos.

A importância deste evento é a de estabelecer diálogos, propiciar o intercâmbio de experiências de leituras e perspectivas em vistas de contribuir para a tessitura de um momento fundamental na sobrevida do escritor – e igualmente para seus leitores, que encontram no seu universo ficcional e nas suas provocações, peças fundamentais para a postura de desassossegados ante esta realidade fugidia porque complexa e cujos meandros cobram de nós o necessário debate.

Nosso interesse é compor um painel multissignificativo que dialogue com as várias possibilidades de leituras e de leitores interessados em oferecer algumas peças indispensáveis ao saber literário e à formação humana – algo escasso numa sociedade cada vez mais presa aos limites impostos pela técnica. As abordagens que formam as vozes desse encontro são diversas porque uma obra de igual plurissignificação não se reduz a uma ou outra crítica.

Buscamos, portanto, acrescentar compreensões na contínua ampliação das fronteiras do universo literário saramaguiano. Este é um evento aberto a refletir algumas das múltiplas facetas inscritas na biografia do autor: o cronista, o poeta, o jornalista, o romancista, o intelectual público, entre tantas e tão intensas tarefas que José Saramago assumiu ao longo dos seus 87 anos de vida.

O evento acontece nos dias 13, 14 e 15 de junho de 2018, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em Natal.

O 1º Colóquio de Estudos Saramaguianos é proposto pelo Departamento de Comunicação Social da UFRN e pelo Grupo de Estudos sobre o Romance, do Departamento de Linguagens e Ciências Humanas da Universidade Federal Rural do Semi-Árido (UFERSA). Tem apoio do Centro de Ciências Humanas, Artes e Letras, da UFRN e da Revista de Estudos Saramaguianos. A coordenação é dos professores doutores Pedro Fernandes Oliveira Neto (UFERSA) e Maria do Socorro Furtado Veloso (UFRN).
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